{"id":328178,"date":"2021-09-01T01:00:00","date_gmt":"2021-08-31T23:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/medizinonline.com\/gestao-de-conflitos-com-doentes-de-culturas-estrangeiras-3\/"},"modified":"2023-01-12T14:02:22","modified_gmt":"2023-01-12T13:02:22","slug":"gestao-de-conflitos-com-doentes-de-culturas-estrangeiras-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/gestao-de-conflitos-com-doentes-de-culturas-estrangeiras-3\/","title":{"rendered":"Gest\u00e3o de conflitos com doentes de culturas estrangeiras"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Uma compreens\u00e3o transcultural do m\u00e9dico sobre os seus pacientes de outras culturas pode ajud\u00e1-lo a compreender, entre outras coisas, problemas de casamentos transculturais, preconceitos e a sua gest\u00e3o, doen\u00e7as e sintomas provenientes de um meio cultural diferente. Neste contexto, os problemas pol\u00edticos decorrentes da situa\u00e7\u00e3o transcultural tamb\u00e9m podem ser melhor compreendidos.<\/strong><\/p>\n\n<!--more-->\n\n<h2 id=\"conflitos-na-relacao-medico-paciente-sob-o-entendimento-transcultural\" class=\"wp-block-heading\">Conflitos na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente sob o entendimento transcultural<\/h2>\n\n<p>A sabedoria de que sem rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 educa\u00e7\u00e3o pode ser aplicada \u00e0 rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, sem rela\u00e7\u00e3o com o paciente n\u00e3o h\u00e1 compreens\u00e3o e cura. Esta hip\u00f3tese de trabalho aplica-se especialmente aos pacientes orientais que pedem emprestada a sua auto-imagem a uma cultura colectiva (n\u00f3s &#8211; for\u00e7a). Isto contrasta com a cultura da Europa Central, que favorece outros tra\u00e7os de personalidade com a sua cultura individual (for\u00e7a do ego).<\/p>\n\n<p>Uma compreens\u00e3o transcultural do m\u00e9dico sobre os seus pacientes de outras culturas pode ajud\u00e1-lo a compreender, entre outras coisas, problemas de casamentos transculturais, preconceitos e a sua gest\u00e3o, doen\u00e7as e sintomas provenientes de um meio cultural diferente. Neste contexto, os problemas pol\u00edticos decorrentes da situa\u00e7\u00e3o transcultural tamb\u00e9m podem ser melhor compreendidos [3].<\/p>\n\n<p>Para a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, isto significa que o m\u00e9dico expressa a sua compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o de vida individual do paciente com a sua liga\u00e7\u00e3o (rela\u00e7\u00e3o), que de bom grado se abre ao m\u00e9dico atrav\u00e9s da compreens\u00e3o e lhe transfere o papel de autoridade e o papel de conhecedor (expectativa de ser ajudado e curado). Se o m\u00e9dico for capaz de moldar positivamente a rela\u00e7\u00e3o com o seu paciente da zona cultural oriental, ele aprende, entre outras coisas, muito sobre o diferente processamento do stress emocional, que \u00e9 naturalmente derivado em fun\u00e7\u00e3o das refer\u00eancias culturais-sociais, o que acaba por dar ao m\u00e9dico informa\u00e7\u00f5es sobre a diferente escolha do \u00f3rg\u00e3o. Sindromes culturais: muitas vezes \u00f3rg\u00e3os culturalmente diferentes s\u00e3o mencionados ao m\u00e9dico como o local da desordem devido a factores externos, por exemplo, queimar o f\u00edgado na Turquia, Ir\u00e3o e Fran\u00e7a com perda, separa\u00e7\u00e3o e dor [4,5]. Do mesmo modo, o cora\u00e7\u00e3o partido, semelhante \u00e0 angina da perda do amor e da solid\u00e3o d\u00f3i o cora\u00e7\u00e3o dos su\u00ed\u00e7os ou dos alem\u00e3es, raz\u00e3o pela qual os alem\u00e3es t\u00eam 4-6 vezes mais probabilidades de serem tratados com comprimidos para o cora\u00e7\u00e3o do que os brit\u00e2nicos e os americanos [4]. Outros \u00f3rg\u00e3os tais como o abd\u00f3men, o umbigo e a cabe\u00e7a s\u00e3o tamb\u00e9m &#8220;codificados como sinais relacionados com o corpo e utilizados para o sofrimento.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1095\" height=\"666\" src=\"https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/hp8_kasten_s12.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16989\"\/><\/figure>\n\n<p>A base para isto \u00e9 uma compreens\u00e3o psicossom\u00e1tica que utiliza o conhecimento transcultural de como o stress emocional, os conceitos dependentes da cultura afectam o corpo e fornecem informa\u00e7\u00f5es sobre a experi\u00eancia individual do conflito emocional. Uma vez que os conceitos individuais de realidade est\u00e3o intimamente ligados a normas de socializa\u00e7\u00e3o e contextos de significado, a experi\u00eancia emocional individual de conflito situa-se num contexto cultural e social pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n<p>Se esta compreens\u00e3o for bem sucedida (tamb\u00e9m sob a forma de interpreta\u00e7\u00f5es e quest\u00f5es de compreens\u00e3o), os padr\u00f5es anteriormente \u00f3bvios com que os factos e o comportamento eram julgados (em regra, isto acontece inconscientemente) tornam-se perme\u00e1veis, de modo a que um distanciamento consciente dos pr\u00f3prios conceitos e h\u00e1bitos de comportamento possa ter lugar. Com uma compreens\u00e3o verbal das necessidades inconscientes subjacentes (consci\u00eancia), abrem-se possibilidades de auto-ajuda para o doente, na qual este pode reconhecer primeiro estas liga\u00e7\u00f5es, como pode harmonizar as suas necessidades em conjunto com o seu m\u00e9dico [3].<\/p>\n\n<p>As normas anteriormente evidentes com as quais os factos e comportamentos eram julgados tornam-se perme\u00e1veis, de modo a que um afastamento destes conceitos e h\u00e1bitos comportamentais possa ter lugar. Peseschkian chama a este processo uma &#8220;reinterpreta\u00e7\u00e3o metat\u00f3rica&#8221;. A compreens\u00e3o transcultural pode aumentar a vontade do paciente de considerar solu\u00e7\u00f5es alternativas, tornando-o consciente da relatividade do conceito de doen\u00e7a e da sua depend\u00eancia do quadro cultural de refer\u00eancia associado [6,7].<\/p>\n\n<h2 id=\"exemplo-de-solidao\" class=\"wp-block-heading\">Exemplo de solid\u00e3o<\/h2>\n\n<p><em>&#8220;A solid\u00e3o tem uma conota\u00e7\u00e3o positiva no uso alem\u00e3o&#8221;. De acordo com o lema de Wilhelm Tell &#8220;O homem forte \u00e9 o mais poderoso sozinho&#8221;, muitos consideram a capacidade de ser auto-suficiente, independente e sozinho como sendo o ep\u00edtome da for\u00e7a. Na Alemanha, n\u00e3o \u00e9 muito percept\u00edvel se algu\u00e9m vai dar um passeio sozinho e pensa nas coisas. No Oriente, tal comportamento suscita geralmente suspeitas: &#8220;Ele est\u00e1 ofendido? Est\u00e1 deprimido ou mesmo melanc\u00f3lico? Certamente n\u00e3o o pode fazer a si pr\u00f3prio ou a n\u00f3s, excluindo-se a si pr\u00f3prio. Se ele tem tristeza, certamente que o podemos ajudar&#8221;! A tentativa de experimentar a solid\u00e3o e de se retirar dos acontecimentos sociais actuais \u00e9 entendida como uma perturba\u00e7\u00e3o da confian\u00e7a m\u00fatua [6].<\/em><\/p>\n\n<p>O exemplo do significado transcultural da solid\u00e3o torna claro como os comportamentos e os seus significados, que at\u00e9 ent\u00e3o estavam fora das ideias e conceitos subjectivos culturalmente moldados da realidade, formam a bitola \u00f3bvia para a avalia\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade e da identidade dos outros.<\/p>\n\n<p>Deve notar-se, no entanto, que o pensamento transcultural tamb\u00e9m tem lugar dentro de uma cultura, porque cada cultura, por sua vez, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uniforme e homog\u00e9nea. Dentro da Rep\u00fablica Federal existem identidades culturais regionais (que podem ser pensadas para qualquer outro pa\u00eds), que podem ter diferen\u00e7as mais significativas entre si do que com outras na\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, o problema da &#8220;mulher&#8221;-&#8220;homem&#8221; (mesmo que ambos provenham da mesma cultura) deve ser colocado em perspectiva com o pensamento transcultural, uma vez que o papel da &#8220;mulher&#8221;-&#8220;homem&#8221; \u00e9 moldado social, cultural e biograficamente.<\/p>\n\n<p>Com a compreens\u00e3o das refer\u00eancias transculturais, a ideia de uma realidade, de um comportamento, de uma concep\u00e7\u00e3o de valor e norma, que at\u00e9 ent\u00e3o era considerada como a \u00fanica e leg\u00edtima, torna-se perme\u00e1vel, pode ganhar elasticidade e permite um distanciamento dos pr\u00f3prios conceitos e h\u00e1bitos comportamentais [8] (Fig. 1).<\/p>\n\n<p>A seguir, gostaria de dar alguns exemplos do que isto significa na pr\u00e1tica di\u00e1ria e do que deve ser clarificado pela compara\u00e7\u00e3o dos conceitos de Oriente e Ocidente. Estes exemplos devem ser entendidos como tipifica\u00e7\u00f5es culturais e devem, portanto, ser utilizados para a compreens\u00e3o.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" width=\"908\" height=\"699\" data-src=\"https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/abb1_hp8_s13_0.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16990 lazyload\" data-srcset=\"https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/abb1_hp8_s13_0.png 908w, https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/abb1_hp8_s13_0-800x616.png 800w, https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/abb1_hp8_s13_0-120x92.png 120w, https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/abb1_hp8_s13_0-90x68.png 90w, https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/abb1_hp8_s13_0-320x246.png 320w, https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/abb1_hp8_s13_0-560x431.png 560w\" data-sizes=\"(max-width: 908px) 100vw, 908px\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 908px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 908\/699;\" \/><\/figure>\n\n<h2 id=\"o-modelo-de-equilibrio-3-life-focus-in-east-and-west\" class=\"wp-block-heading\">O Modelo de Equil\u00edbrio [3] &#8211; Life Focus in East and West<\/h2>\n\n<p>Impl\u00edcito no modelo de equil\u00edbrio est\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o de sa\u00fade abrangente. Se as quatro \u00e1reas forem ocupadas e vividas num relativo equil\u00edbrio na vida di\u00e1ria, se for poss\u00edvel um equil\u00edbrio dentro destas refer\u00eancias, ent\u00e3o podemos falar de qualidade de vida no sentido da sa\u00fade como um todo. Isto refere-se aos seguintes pontos:<\/p>\n\n<p><strong>Corpo: <\/strong>sa\u00fade, sexualidade, est\u00e9tica, higiene, ritmo sono-vig\u00edlia, desporto\/movimento, nutri\u00e7\u00e3o e dor; poss\u00edveis sintomas: psicopatol\u00f3gicos, psicomotores, sintomas vegetativos e ansiedade sobre o corpo;<\/p>\n\n<p><strong>Desempenho:<\/strong> \u00e1rea produtiva da pessoa, especialmente o trabalho; poss\u00edveis sintomas: reac\u00e7\u00f5es ao stress, problemas de auto-estima, medo de falhar, depress\u00e3o de al\u00edvio, etc;<\/p>\n\n<p><strong>Contacto: <\/strong>Sociedade, fam\u00edlia, amigos, conhecidos, outras culturas; poss\u00edveis sintomas: Inibi\u00e7\u00e3o, ansiedade social, ansiedade de objectos, comportamento compulsivo, problemas de desprendimento, etc..;<\/p>\n\n<p><strong>Fantasia\/futuro:<\/strong> religi\u00e3o, significado, vis\u00e3o do mundo, imagem do homem, filosofia; poss\u00edvel simpatia por mim: pensamento obsessivo, psicose da ansiedade, impot\u00eancia, resigna\u00e7\u00e3o, suic\u00eddio, etc.<\/p>\n\n<p>Se o modelo de equil\u00edbrio se apresenta como um s\u00edmbolo de integridade, ent\u00e3o a sa\u00fade \u00e9 um estado ideal em que a distribui\u00e7\u00e3o de energia em todas as \u00e1reas \u00e9 continuamente equilibrada.<\/p>\n\n<p>Com o modelo de equil\u00edbrio de acordo com Peseschkian [9] (Fig. 2), as diferen\u00e7as culturais podem ser mostradas, como os focos principais s\u00e3o enfatizados de forma diferente nas diferentes culturas, e atrav\u00e9s disto, um conceito diferente de sa\u00fade e doen\u00e7a (sintomas) tamb\u00e9m pode ser desenvolvido. Nas chamadas culturas &#8220;ocidentais&#8221;, a \u00eanfase \u00e9 dada \u00e0s \u00e1reas do corpo e do desempenho (descri\u00e7\u00f5es apropriadas para isto: for\u00e7a do ego e sociedade do desempenho), enquanto nas culturas &#8220;orientais&#8221;, a \u00eanfase \u00e9 dada \u00e0s \u00e1reas de contacto e imagina\u00e7\u00e3o\/futuro (descri\u00e7\u00f5es apropriadas para isto: sociedade colectiva e for\u00e7a de n\u00f3s).<\/p>\n\n<p>Se j\u00e1 aqui foi escrito que a personalidade \u00e9 composta por h\u00e1bitos culturais (conceitos, normas e vis\u00e3o do mundo), ent\u00e3o \u00e9 de esperar que conflitos, desordens e doen\u00e7as estejam correlacionados com isto.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" width=\"1282\" height=\"1008\" data-src=\"https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/abb2_hp8_s14.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-16991 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1282px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1282\/1008;\" \/><\/figure>\n\n<h2 id=\"estudo-de-caso\" class=\"wp-block-heading\">Estudo de caso<\/h2>\n\n<p>O problema transcultural pode ser ilustrado por um exemplo com um iraniano de 64 anos que veio ao meu consult\u00f3rio para uma entrevista inicial em Outubro de 2020. Quando lhe perguntaram o que o traria at\u00e9 mim, ele citou problemas conjugais. Os problemas conjugais tinham surgido cada vez mais nos \u00faltimos anos, uma vez que a sua esposa tinha aceite um emprego numa empresa de viagens h\u00e1 cerca de 10 anos e tinha constru\u00eddo rela\u00e7\u00f5es cada vez mais estreitas com os colegas de l\u00e1, o que levaria a esposa a estar cada vez mais fora de casa. Tamb\u00e9m se queixou de perturba\u00e7\u00f5es do sono, problemas estomacais e intestinais, inquieta\u00e7\u00e3o interior e tamb\u00e9m sentimentos de raiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua esposa.<\/p>\n\n<p>O paciente est\u00e1 casado com uma mulher dezasseis anos mais nova do que ele h\u00e1 18 anos. Ambos t\u00eam dois filhos (filha de 14 anos; filho de 12 anos). O paciente \u00e9 mu\u00e7ulmano e trabalha no sector das TI. A sua esposa vem da Alemanha Oriental, \u00e9 protestante, mas a religi\u00e3o n\u00e3o desempenharia um papel para a sua esposa. O seguinte excerto da primeira entrevista ir\u00e1 ilustrar brevemente o problema:<\/p>\n\n<p><strong>Pat:<\/strong> &#8220;Faz-me agressivo, ela est\u00e1 frequentemente com estas mulheres do seu trabalho depois do trabalho e eu n\u00e3o consigo ver como ela \u00e9 e o que faz l\u00e1&#8221;.<\/p>\n\n<p><strong>Terapeuta:<\/strong> &#8220;Est\u00e1 aborrecido por a sua mulher ter constru\u00eddo o seu pr\u00f3prio c\u00edrculo de amigos com colegas de trabalho e por a sua mulher n\u00e3o o informar sobre isso&#8221;?<\/p>\n\n<p><strong>Pat.: <\/strong>&#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Porque est\u00e1 ela envolvida com estranhos quando tem fam\u00edlia&#8221;?<\/p>\n\n<p><em>O paciente est\u00e1 visivelmente excitado e parece muito s\u00e9rio.<\/em><\/p>\n\n<p><strong>Terapeuta:<\/strong> &#8220;Deseja que a sua mulher veja a fam\u00edlia e o casamento como o seu centro de vida?<\/p>\n\n<p><strong>Pat.:<\/strong> &#8220;Sim. O que est\u00e1s a fazer?<\/p>\n\n<p><strong>Terapeuta:<\/strong> &#8220;Bem, penso que a sua mulher tem o desejo de ter o seu pr\u00f3prio c\u00edrculo de amigos, para al\u00e9m da sua fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n\n<p><strong>Pat.: <\/strong>&#8220;Eu n\u00e3o fa\u00e7o isso. Vim sempre directamente para casa depois do meu trabalho&#8221;.<\/p>\n\n<p><strong>Terapeuta: <\/strong>&#8220;Deseja que a sua mulher esteja consigo e com os seus filhos muito mais&#8221;?<\/p>\n\n<p><strong>Pat.: <\/strong>&#8220;Sim. Ela deveria ser muito mais receptiva a mim, aproximar-se mais de mim e compreender os meus sentimentos. Se ela mostrasse apenas metade dos seus sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es, eu ficaria feliz. Quando me aproximo dela, ela apenas responde que \u00e9 um ser social e me evita&#8221;.<\/p>\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o de conflito do pat. torna-se compreens\u00edvel tendo em conta os seguintes antecedentes. O paciente tinha conhecido a sua mulher no trabalho nos primeiros dias da sua carreira. Rapidamente se tornaram pr\u00f3ximos e casaram. No entanto, teve de experimentar como os pais da sua mulher tinham uma atitude negativa em rela\u00e7\u00e3o a ele devido \u00e0 sua origem estrangeira. A forma aberta e clara como o indicaram tinha ofendido muito o paciente, mas devido \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o oriental n\u00e3o o tinha deixado transparecer. Pelo contr\u00e1rio, sempre encorajou a sua esposa a continuar o contacto com eles, que os sogros tinham interrompido ap\u00f3s o casamento. Era incompreens\u00edvel para o paciente como os pais podiam comportar-se t\u00e3o desdenhosamente para com a sua filha e os seus netos.<\/p>\n\n<p>Na terapia, podia ser deixado claro ao paciente que ele tinha assumido o papel de marido para a sua esposa, por um lado, e inconscientemente tamb\u00e9m o papel de pai, por outro. O paciente iraniano, embora mu\u00e7ulmano mas n\u00e3o praticante (como salientou), tinha adoptado inconscientemente as impress\u00f5es religioso-culturais de forma irreflectida e irreflectida, esperando que a sua esposa cumprisse as suas expectativas, virtualmente como o seu dever evidente. Com isto ele quis dizer que era natural para ele que a sua esposa o seguisse e o apoiasse sem reservas em tudo, que era como funcionava nos primeiros anos de casamento (no sentido do papel patriacal do marido). No decurso dos anos seguintes do casamento, a esposa come\u00e7ou a mostrar-se para com o seu marido (no sentido de conluio, segundo J\u00f6rg Willi*)  [10]) para se libertar ainda mais, o que pode ser entendido como um distanciamento do seu pai inconsciente, como uma express\u00e3o da sua autonomia p\u00f3s-matura\u00e7\u00e3o, ou seja, se ela dirigiu a sua defesa contra o seu marido, esta liberta\u00e7\u00e3o foi inconscientemente dirigida ao seu pai. Por outras palavras, o seu crescente desejo de autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao seu marido (a paciente) visava, inconscientemente, desligar-se do seu pai interior.<\/p>\n\n<p><span style=\"font-size: 12px;\"><em>* No seu modelo de conluio de casal, J\u00f6rg Willi desenha que no in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o as diferentes imagens de si e dos outros s\u00e3o inconscientemente o principal motivo para se encontrarem um ao outro como casal, o que ap\u00f3s alguns anos se torna o objecto de conflito. Por exemplo, a mulher procura um homem forte para se apoiar, o homem procura uma mulher que possa apoiar-se nele e ele pode assumir a responsabilidade por ela. Esta motiva\u00e7\u00e3o original torna-se o objecto de reprova\u00e7\u00e3o: A mulher acusa o homem de querer sempre domin\u00e1-la e determin\u00e1-la, e o homem acusa a mulher de ter sempre de tomar conta de tudo e de n\u00e3o ser capaz de se inclinar por vezes.<\/em><\/span><\/p>\n\n<p>O paciente, por sua vez, transferiu inconscientemente as suas expectativas culturais para o seu casamento e esposa, dos quais esperava fidelidade e docilidade, o que n\u00e3o s\u00f3 moldou a sua compreens\u00e3o da fam\u00edlia, mas tamb\u00e9m o seu conceito narcisista de auto-estima (amor-pr\u00f3prio). Ele experimentou as aspira\u00e7\u00f5es de autonomia da sua esposa como uma mortifica\u00e7\u00e3o da sua afirma\u00e7\u00e3o narcisista como marido, no entanto como infidelidade e como sendo abandonado pela sua esposa. O paciente levou muito pessoalmente todos os desenvolvimentos aut\u00f3nomos da sua esposa, dirigidos contra ele. Devido ao seu conceito de cortesia, ele tentou fazer com que a sua esposa se sentisse culpada atrav\u00e9s de acusa\u00e7\u00f5es subtis, na linha de como ela lhe poderia fazer isto. No processo, ele dirigia cada vez mais a sua agress\u00e3o contra o seu pr\u00f3prio ego, o que por sua vez levava aos sintomas f\u00edsicos descritos. Esta, por sua vez, foi a ocasi\u00e3o para a esposa enfatizar ainda mais a autonomia a fim de se separar do marido. Ambos os c\u00f4njuges estavam enredados um com o outro a um n\u00edvel inconsciente, com as suas normas de socializa\u00e7\u00e3o individual-cultural n\u00e3o dominadas e n\u00e3o reflectidas, cada uma das quais foi inconscientemente transferida para o parceiro e levou aos mal-entendidos descritos.<\/p>\n\n<p>Apenas o processamento do fundo transcultural ajudou o paciente a compreender gradualmente o seu comportamento no contexto de expectativas culturalmente diferentes, a sair do papel paterno, a fim de lutar por uma atitude de compreens\u00e3o virada para a sua esposa. Em outras sess\u00f5es, o paciente aprendeu o controlo por impulso sobre os seus sentimentos de queixa. Isto ajudou o paciente a distanciar-se das suas pr\u00f3prias expectativas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua esposa, a adoptar uma atitude mais benevolente a fim de sair do papel de pai projectado e a comunicar de uma forma mais parit\u00e1ria, o que aliviou visivelmente a tensa situa\u00e7\u00e3o conjugal.<\/p>\n\n<h2 id=\"\" class=\"wp-block-heading\">\u00a0<\/h2>\n\n<h2 id=\"-2\" class=\"wp-block-heading\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-16992 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1100px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1100\/1072;height: 585px; width: 600px;\" data-src=\"https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/tab1-hp8_s15.png\" alt=\"\" width=\"1100\" height=\"1072\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><\/h2>\n\n<h2 id=\"-3\" class=\"wp-block-heading\">\u00a0<\/h2>\n\n<h2 id=\"conclusao\" class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n<p>O pensamento transcultural seria praticamente a possibilidade de olhar para ideias de solu\u00e7\u00e3o e padr\u00f5es alternativos de outras culturas, de os transferir para o sistema pessoal e de os experimentar no seu pr\u00f3prio contexto. Na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-doente com pacientes de outras culturas, promove uma compreens\u00e3o do sintoma cultural-individual e do hist\u00f3rico da doen\u00e7a que o paciente apresenta inconscientemente ao m\u00e9dico.<\/p>\n\n<p>Esta abordagem explicativa, que contrasta e evidencia realidades amb\u00edguas e multicamadas atrav\u00e9s da relativiza\u00e7\u00e3o transcultural, oferece a oportunidade, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-doente, de oferecer aos m\u00e9dicos novos conceitos explicativos no refor\u00e7o e desenvolvimento de um elevado n\u00edvel de integra\u00e7\u00e3o, que pode permitir o acesso a abordagens alternativas a solu\u00e7\u00f5es na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-doente. Conflitos e perturba\u00e7\u00f5es devem tamb\u00e9m ser questionados de um ponto de vista transcultural, a fim de se tornar mais consciente dos potenciais padr\u00f5es de pensamento unilateral, que por sua vez comprometem o m\u00e9dico a estrat\u00e9gias de resolu\u00e7\u00e3o de problemas unilaterais (cf. a este [11]) e n\u00e3o permitem a resolu\u00e7\u00e3o activa de conflitos (conceitos circulares, ou seja, fica-se nos h\u00e1bitos habituais de pensamento cultural, n\u00e3o se olha para al\u00e9m da &#8220;borda da placa&#8221;). Isto tamb\u00e9m pode ser parcialmente respons\u00e1vel pelo diagn\u00f3stico de sintomas como desespero, impot\u00eancia e burnout.<\/p>\n\n<p>A compreens\u00e3o transcultural, levada mais longe, poderia ser postulada: As pessoas compreendem que a terra \u00e9 vista apenas como um pa\u00eds e que todas as pessoas s\u00e3o seus cidad\u00e3os. Neste sentido, este pensamento e compreens\u00e3o seriam capazes de ter uma influ\u00eancia consider\u00e1vel no desenvolvimento de todas as pessoas nesta terra e as pessoas n\u00e3o s\u00f3 veriam o estrangeiro nas outras culturas. Em vez disso, novas oportunidades, que contribuiriam para o entendimento internacional e, por acaso, seriam uma miss\u00e3o de paz.<\/p>\n\n<h2 id=\"mensagens-take-home\" class=\"wp-block-heading\">Mensagens Take-Home<\/h2>\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>A personalidade \u00e9 constitu\u00edda por h\u00e1bitos culturais, nos quais se integram normas de conceitos, vis\u00f5es do mundo e ideias do grupo de refer\u00eancia prim\u00e1rio (pais, fam\u00edlia), que se tornaram assim um h\u00e1bito pessoal e colectivo que tomamos como certo.<\/li>\n\n\n\n<li>Mas, na realidade, s\u00e3o apenas os h\u00e1bitos devido \u00e0s relativas repeti\u00e7\u00f5es no habitat cultural, social e individual que se tornam uma esp\u00e9cie de lei rigorosa. O acesso a possibilidades mais profundas, interiores, depende deste processo de aprendizagem atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o que nos molda.<\/li>\n\n\n\n<li>O resultado deste processo de aprendizagem pode ser que o indiv\u00edduo (pessoa) se limita a si pr\u00f3prio por suposi\u00e7\u00f5es do que pode e n\u00e3o pode fazer. Isto reduz a criatividade do indiv\u00edduo e a sua capacidade de perceber novas e diversas formas de lidar com o conflito.<\/li>\n\n\n\n<li>Com a abordagem da Psicoterapia Positiva e Transcultural (de acordo com Peseschkian), \u00e9 oferecido ao m\u00e9dico praticante um entendimento e uma ferramenta quando n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda, pelo menos tr\u00eas solu\u00e7\u00f5es.<\/li>\n<\/ul>\n\n<p>Literatura:<\/p>\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Bah\u00e1&#8217;u&#8217;ll\u00e1h A: Mensagens de Akka [Akka 1868] 1982. Hofheim.<\/li>\n\n\n\n<li>Peseschkian N: O Comerciante e o Papagaio. Frankfurt 1979.<\/li>\n\n\n\n<li>Peseschkian N: Psicossom\u00e1tica e psicoterapia positiva. Berlim 1991.<\/li>\n\n\n\n<li>Kizilhan J: Aspectos transculturais do dist\u00farbio da dor somatoforme. Psicoterapeuta 2009; 54 (4): 81-88.<\/li>\n\n\n\n<li>G\u00fcn AK: Compet\u00eancias terap\u00eauticas interculturais. Possibilidades e limites da ac\u00e7\u00e3o psicoterap\u00eautica. Kohlhammer 2017.<\/li>\n\n\n\n<li>Peseschkian N: Terapia Familiar Positiva. Frankfurt 1982.<\/li>\n\n\n\n<li>R\u00f6sing I: A investiga\u00e7\u00e3o de burnout est\u00e1 queimada? An\u00e1lise e cr\u00edtica da investiga\u00e7\u00e3o internacional sobre burnout. Heidelberg 2003.<\/li>\n\n\n\n<li>Welsch W: Transculturalidade &#8211; Realidade &#8211; Hist\u00f3ria &#8211; Tarefa. Viena 2017.<\/li>\n\n\n\n<li>Peseschkian N: Psicoterapia Positiva. Frankfurt 1977.<\/li>\n\n\n\n<li>Willi J: A rela\u00e7\u00e3o de dois: A interac\u00e7\u00e3o inconsciente dos parceiros como conluio. 5\u00aa ed. Hamburgo 2012.<\/li>\n\n\n\n<li>Savicki V: Queimadura em Treze Culturas. Stress e C\u00f3pia em Trabalhadores de Assist\u00eancia a Crian\u00e7as e Jovens. Westport 2002.<\/li>\n\n\n\n<li>Peseschkian N: Em busca de significado. Frankfurt.<\/li>\n<\/ol>\n\n<p><em>PR\u00c1TICA DO GP 2021; 16(8): 12-16<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma compreens\u00e3o transcultural do m\u00e9dico sobre os seus pacientes de outras culturas pode ajud\u00e1-lo a compreender, entre outras coisas, problemas de casamentos transculturais, preconceitos e a sua gest\u00e3o, doen\u00e7as e&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":110469,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"pmpro_default_level":"","cat_1_feature_home_top":false,"cat_2_editor_pick":false,"csco_eyebrow_text":"Psicoterapia","footnotes":""},"category":[22618,11524,11305,11481,11551],"tags":[11754,17296,15184,17301],"powerkit_post_featured":[],"class_list":["post-328178","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-formacao-cme","category-formacao-continua","category-medicina-interna-geral","category-psiquiatria-e-psicoterapia","category-rx-pt","tag-formacao-cme","tag-gestao-de-conflitos","tag-psicoterapia","tag-relacao-medico-doente","pmpro-has-access"],"acf":[],"publishpress_future_action":{"enabled":false,"date":"2026-05-02 19:22:07","action":"change-status","newStatus":"draft","terms":[],"taxonomy":"category","extraData":[]},"publishpress_future_workflow_manual_trigger":{"enabledWorkflows":[]},"wpml_current_locale":"pt_PT","wpml_translations":{"es_ES":{"locale":"es_ES","id":328180,"slug":"gestion-de-conflictos-con-pacientes-de-culturas-extranjeras-3","post_title":"Gesti\u00f3n de conflictos con pacientes de culturas extranjeras","href":"https:\/\/medizinonline.com\/es\/gestion-de-conflictos-con-pacientes-de-culturas-extranjeras-3\/"}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/328178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=328178"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/328178\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":328179,"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/328178\/revisions\/328179"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/110469"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=328178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/category?post=328178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=328178"},{"taxonomy":"powerkit_post_featured","embeddable":true,"href":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/powerkit_post_featured?post=328178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}