{"id":336790,"date":"2019-02-05T01:00:00","date_gmt":"2019-02-05T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/medizinonline.com\/sera-que-o-horror-continuara-a-viver-nas-geracoes-futuras\/"},"modified":"2019-02-05T01:00:00","modified_gmt":"2019-02-05T00:00:00","slug":"sera-que-o-horror-continuara-a-viver-nas-geracoes-futuras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/medizinonline.com\/pt-pt\/sera-que-o-horror-continuara-a-viver-nas-geracoes-futuras\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 que o horror continuar\u00e1 a viver nas gera\u00e7\u00f5es futuras?"},"content":{"rendered":"<p><strong>V\u00e1rios estudos mostram que a vulnerabilidade aos sintomas de transtorno de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico (TEPT) \u00e9 aumentada nos descendentes de sobreviventes de trauma. Os mecanismos psicobiol\u00f3gicos envolvem o eixo hipot\u00e1lamo-hip\u00f3fise-adrenal, entre outros. O presente artigo resume sucintamente os resultados e conclus\u00f5es correspondentes.<\/strong><\/p>\n<p> <!--more--> <\/p>\n<p>Em experi\u00eancias com animais e humanos, poderia ser demonstrada uma maior vulnerabilidade a doen\u00e7as relacionadas com o stress e baixos n\u00edveis de cortisol como correlato biol\u00f3gico (descoberta t\u00edpica em TEPT) &#8211; tanto nas pessoas directamente afectadas por experi\u00eancias traum\u00e1ticas como nos seus filhos. No entanto, verificou-se tamb\u00e9m que estas altera\u00e7\u00f5es relacionadas com o stress s\u00e3o revers\u00edveis, dependendo das condi\u00e7\u00f5es de vida. Os peritos recomendam que as v\u00edtimas de trauma informem os seus familiares sobre o trauma que sofreram para que os sintomas possam ser reconhecidos e tratados numa fase precoce.<\/p>\n<h2 id=\"pesadelos-inexplicaveis-e-assustadores\">Pesadelos inexplic\u00e1veis e assustadores<\/h2>\n<p>Anna n\u00e3o sabe o que fazer: a sua filha de 16 anos tem estado a acordar de madrugada com um grito alto h\u00e1 meio ano. A adolescente deita-se na cama encharcada em suor e conta \u00e0 sua m\u00e3e sobre medos e sonhos difusos; sobre quartos escuros e fechados, dos quais n\u00e3o consegue encontrar a sa\u00edda. A rapariga tem vindo a reagir a ru\u00eddos altos h\u00e1 muito tempo e mostra dificuldades no contacto com estranhos. Em circunst\u00e2ncias normais, suspeitar-se-ia que existiam dificuldades na fam\u00edlia ou na escola. O m\u00e9dico consultado diagnostica sintomas que apontam para transtorno de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico (TEPT). As pessoas com PTSD passam por sentimentos, tamb\u00e9m conhecidos como &#8220;flashbacks&#8221;, muitas vezes durante anos &#8211; sem tratamento mesmo para a vida ap\u00f3s o evento traum\u00e1tico. Estas perturba\u00e7\u00f5es s\u00e3o observadas ap\u00f3s acidentes, experi\u00eancias de guerra ou outros acontecimentos dram\u00e1ticos. Ansiedade, depress\u00e3o, saltos e sintomas de pesadelo como a filha de Anna s\u00e3o descritos. No entanto, o adolescente n\u00e3o tinha sofrido qualquer acontecimento traum\u00e1tico. Nascida a 13&nbsp;de Dezembro de 2001 num hospital de Nova Iorque, a crian\u00e7a viveu em circunst\u00e2ncias familiares intactas com os seus pais e dois irm\u00e3os saud\u00e1veis. Como pode a filha de Anna ainda desenvolver sintomas de TEPT?<\/p>\n<p>Ela pode ter passado uma vida normal, mas a sua m\u00e3e experimentou &#8211; e sobreviveu &#8211; algo terr\u00edvel: os ataques terroristas de 11&nbsp;de Setembro de 2001 em Nova Iorque. Gr\u00e1vida de seis meses, Anna estava a preparar uma confer\u00eancia para o seu chefe no escrit\u00f3rio do World Trade Center de manh\u00e3 cedo, quando o primeiro avi\u00e3o sequestrado bateu contra a Torre Norte 50 andares acima dela \u00e0s 8.46 da manh\u00e3. Ela e os seus colegas de escrit\u00f3rio conseguiram escapar antes do colapso da torre. Cerca de 3000 n\u00e3o sobreviveram, morreram nas chamas ou nos edif\u00edcios em colapso. &#8220;Os sons dos corpos a bater no ch\u00e3o assombram-me at\u00e9 hoje&#8221;, diz Anna ao m\u00e9dico que cuida da sua filha; ela referia-se \u00e0s pessoas que, desesperadas, saltaram das janelas e bateram no asfalto. Ela nunca falou do drama com a sua filha &#8211; ela n\u00e3o a queria sobrecarregar com isso. Como pode ela sofrer de PTSD quando ainda n\u00e3o nasceu?<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria fict\u00edcia foi mostrada de forma t\u00e3o ou semelhante ap\u00f3s os acontecimentos dram\u00e1ticos do 11 de Setembro em numerosos casos descritos tanto cientificamente como jornalisticamente [1\u20133].<\/p>\n<h2 id=\"os-traumas-sao-transmitidos-geneticamente-a-descendencia\">Os traumas s\u00e3o transmitidos geneticamente \u00e0 descend\u00eancia?<\/h2>\n<p>Rachel Yehuda, professora de psiquiatria na Universidade Mount Sinai em Nova Iorque, tem vindo a pesquisar o PTSD h\u00e1 anos. Ela demonstrou que as v\u00edtimas de trauma apresentavam diminui\u00e7\u00f5es t\u00edpicas de uma hormona end\u00f3gena, o cortisol [4]. Os n\u00edveis diminu\u00eddos de cortisol s\u00e3o descritos nos efeitos secund\u00e1rios de traumas cr\u00f3nicos e s\u00e3o controlados de forma complexa atrav\u00e9s de genes; os mecanismos exactos s\u00e3o objecto de numerosos estudos <strong>(Fig.&nbsp;1)<\/strong>. Estas mudan\u00e7as t\u00eam sido observadas em numerosos outros grupos, incluindo sobreviventes dos ataques do World Trade Center e sobreviventes do Holocausto [5]. Ambos os grupos mostraram sintomas semelhantes de TEPT e n\u00edveis reduzidos de cortisol [1].  &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-11295\" alt=\"\" src=\"https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/abb1_np1_s33.png\" style=\"height:565px; width:600px\" width=\"1100\" height=\"1036\"><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que \u00e9 excitante e chocante nos estudos \u00e9: n\u00e3o s\u00f3 as v\u00edtimas mostraram estas mudan\u00e7as, mas tamb\u00e9m a sua descend\u00eancia. Yehuda foi capaz de demonstrar que pais traumatizados com sintomas de TEPT deram \u00e0 luz crian\u00e7as com sintomas semelhantes; eles pr\u00f3prios tinham sintomas cl\u00ednicos e psicol\u00f3gicos de trauma que n\u00e3o tinham experimentado<strong> (Fig.&nbsp;2, Fig.&nbsp;3)<\/strong> [2].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-11296 lazyload\" alt=\"\" data-src=\"https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/abb2_np1_s33.png\" style=\"--smush-placeholder-width: 913px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 913\/1062;height:465px; width:400px\" width=\"913\" height=\"1062\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\"><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-11297 lazyload\" alt=\"\" data-src=\"https:\/\/medizinonline.com\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/abb3_np1_s35.png\" style=\"--smush-placeholder-width: 902px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 902\/1040;height:461px; width:400px\" width=\"902\" height=\"1040\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\"><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2 id=\"ate-quatro-geracoes-na-nossa-psique\">At\u00e9 quatro gera\u00e7\u00f5es na nossa psique<\/h2>\n<p>Os estudos com animais parecem confirmar esta teoria. Os investigadores insistiram repetidamente nos ratos masculinos, separando-os das suas m\u00e3es. Estes ratos reagiram com sinais de depress\u00e3o. Os cientistas deixaram estes animais reproduzir-se &#8211; a sua prole mostrou sintomas semelhantes aos dos seus pais. Estas mudan\u00e7as puderam ser seguidas at\u00e9 \u00e0 quarta gera\u00e7\u00e3o, embora j\u00e1 n\u00e3o tivessem de sofrer traumas. Foi demonstrado v\u00e1rias vezes que animais de laborat\u00f3rio traumatizados mostraram altera\u00e7\u00f5es na sua composi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que foram transmitidas ao longo de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es [6].<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 esperan\u00e7a: as mesmas equipas de investiga\u00e7\u00e3o conseguiram demonstrar, pelo menos em experi\u00eancias com animais, que as mudan\u00e7as induzidas pelo stress s\u00e3o revers\u00edveis em melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, tanto nos animais afectados como na sua descend\u00eancia [7].<\/p>\n<h2 id=\"perguntas-abertas\">Perguntas abertas<\/h2>\n<p>O que pode ser aprendido com estes estudos? Da evid\u00eancia de que experi\u00eancias traum\u00e1ticas podem ser transmitidas aos descendentes? Os investigadores chamam a este processo &#8220;heran\u00e7a epigen\u00e9tica transgeracional&#8221;. Como e onde ocorrem as altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas ainda n\u00e3o foi esclarecido de forma conclusiva. At\u00e9 que haja provas s\u00f3lidas, os psiquiatras recomendam que as pessoas com experi\u00eancias traum\u00e1ticas informem os seus filhos sobre a natureza e extens\u00e3o do trauma. Isto torna poss\u00edvel examinar os problemas dos descendentes num novo contexto, reconhec\u00ea-los mais cedo e trat\u00e1-los.<\/p>\n<p>Curiosamente, a B\u00edblia j\u00e1 parece descrever o conhecimento cient\u00edfico moderno. O Livro de Mois\u00e9s n\u00e3o nos diz j\u00e1 que a culpa dos pais pode ser perseguida at\u00e9 \u00e0 quarta gera\u00e7\u00e3o? Isto n\u00e3o tem nada a ver com ci\u00eancia, \u00e9 provavelmente a experi\u00eancia pessoal dos autores da B\u00edblia. At\u00e9 sabermos mais sobre transmiss\u00f5es transgeracionais de traumas, as v\u00edtimas devem receber ajuda r\u00e1pida e profissional. O mais importante \u00e9 que os seus filhos e netos s\u00e3o as nossas gera\u00e7\u00f5es futuras e n\u00e3o devem ser esquecidos.<\/p>\n<p>\nLiteratura:<\/p>\n<ol>\n<li>Marca SR, et al: O efeito do PTSD materno ap\u00f3s exposi\u00e7\u00e3o a traumatismos in utero no comportamento e temperamento do beb\u00e9 de 9 meses de idade. Ann N Y Acad Sci 2006; 1071: 454-458.<\/li>\n<li>Yehuda R, Bierer LM: transmiss\u00e3o transgeracional do risco de cortisol e PTSD. Prog Brain Res 2008; 167: 121-135.<\/li>\n<li>Uchida M, et al: O stress p\u00f3s-traum\u00e1tico dos pais e os problemas de comportamento infantil nos centros mundiais de com\u00e9rcio respondem. Am J Ind Med 2018; 61(6): 504-514.<\/li>\n<li>Yehuda R, et al.: Efeitos transgeracionais de transtorno de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico em beb\u00e9s de m\u00e3es expostas aos ataques do World Trade Center durante a gravidez. J Clin Endocrinol Metab 2005; 90(7): 4115-4118.<\/li>\n<li>Rakoff V: Um efeito a longo prazo da experi\u00eancia do campo de concentra\u00e7\u00e3o. Pontos de vista 1966; 1: 17-22.<\/li>\n<li>van Steenwyk G, et al.: Transgenerational inheritance of behavioural and metabolic effects of paternal exposure to traumatic stress in early postnatal life: evidence in the<sup>4th<\/sup> generation. Environ Epigenet 2018 Oct 16; 4(2). https:\/\/doi.org\/10.1093\/eep\/dvy023<\/li>\n<li>Gapp K, et al.: Potencial de Enriquecimento Ambiental para Prevenir Efeitos Transgeracionais do Traumatismo Paternal. Neuropsicofarmacologia 2016; 41(11): 2749-2758.<\/li>\n<li>Yehuda R: Dist\u00farbio de Stress P\u00f3s-Traum\u00e1tico. N Engl J Med 2002; 346(2): 108-114.<\/li>\n<li>Anisman H, et al: sintomas de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico e n\u00edveis de cortisol salivar. Am J Psychiatry 2001; 158: 1509-1511.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>InFo NEUROLOGIA &amp; PSYCHIATRY 2019; 17(1): 32-35.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00e1rios estudos mostram que a vulnerabilidade aos sintomas de transtorno de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico (TEPT) \u00e9 aumentada nos descendentes de sobreviventes de trauma. 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